Avaliação da cultura de segurança do paciente

Por Dennis Junior
A avaliação da cultura de segurança do paciente é a medição, por questionário, de como os profissionais percebem a segurança na própria instituição: se falam abertamente sobre erros, se notificam incidentes, se confiam na resposta da gestão. No Brasil, a Anvisa disponibiliza gratuitamente aos hospitais um questionário eletrônico baseado no instrumento da agência americana AHRQ. Este guia explica como funciona, como planejar e, principalmente, o que fazer com o resultado.
O que é cultura de segurança do paciente?
Cultura de segurança é o conjunto de valores, atitudes e comportamentos que

determina como uma organização lida com riscos e falhas. Ela aparece em perguntas do dia a dia: o técnico se sente seguro para interromper um procedimento? O erro vira aprendizado ou punição? A passagem de plantão é tratada como etapa crítica?
A RDC Anvisa nº 36/2013, que instituiu as ações para a segurança do paciente em serviços de saúde, coloca a promoção da cultura de segurança entre as atribuições do serviço e do Núcleo de Segurança do Paciente. Medir é o primeiro passo para gerenciar.
Por que avaliar a cultura de segurança?
Porque indicadores de eventos adversos mostram o que aconteceu, mas a cultura mostra o que tende a acontecer. Uma equipe que não notifica, por exemplo, gera uma taxa de eventos artificialmente baixa. A avaliação ajuda a:
identificar fragilidades que nenhum indicador assistencial revela;
priorizar o plano de ação do NSP com base em dados, não em impressões;
acompanhar a evolução ao longo do tempo;
envolver as equipes, que passam a ver o tema como responsabilidade coletiva.
Esse olhar dialoga diretamente com a cultura justa, que trata de como a instituição responde às falhas.
Qual questionário usar? HSOPS 1.0 ou 2.0?
O Manual do Usuário do E-Questionário de Cultura de Segurança Hospitalar, 2ª edição (Anvisa, 2025) oferece duas versões do Hospital Survey on Patient Safety Culture (HSOPS), da AHRQ:
Versão | Itens | Dimensões | Quando usar |
HSOPS 1.0 | 62 | 12 | Para comparar com avaliações anteriores feitas nessa versão. |
HSOPS 2.0 | 40 | 10 | Recomendada para avaliações novas. |
Quais são as dimensões avaliadas no HSOPS 2.0?
Comunicação sobre erros
Abertura para comunicação
Transferência de cuidados
Apoio da gestão hospitalar
Aprendizado organizacional
Notificação de incidentes
Resposta institucional aos erros
Dimensionamento de pessoal e ritmo de trabalho
Apoio da chefia imediata
Trabalho em equipe
Como planejar a avaliação no hospital?
1. Monte a equipe do projeto
O NSP lidera, com um ponto de contato principal. Envolva a alta gestão desde o início: sem patrocínio, a taxa de resposta cai e o plano de ação não sai do papel.
2. Defina quem responde
Segundo o manual, devem responder profissionais que conhecem as rotinas do hospital, interagem regularmente com outros profissionais e atuam majoritariamente na instituição, incluindo áreas de apoio. Médicos com atuação eventual só entram se mantiverem vínculo contínuo.
3. Calcule a amostra
O manual traz uma tabela de referência (95% de confiança):
Profissionais elegíveis | Precisão de 5% | Precisão de 10% |
Até 500 | 220 | 81 |
501 a 700 | 250 | 85 |
701 a 1.300 | 300 | 90 |
1.301 a 4.000 | 350 | 94 |
Acima de 4.000 | 383 | 96 |
A recomendação é convidar o dobro do necessário, já que a taxa de resposta esperada gira em torno de 50%.
4. Planeje o período de coleta
Reserve pelo menos 10 semanas para todo o processo. O sistema envia lembretes automáticos aos 7, 10 e 15 dias e encerra a coleta após 3 meses, mas o manual recomenda concluir em até 2 meses.
5. Comunique antes de aplicar
Explique por que a pesquisa existe, garanta o anonimato e mostre o que será feito com os resultados. A confiança na confidencialidade é o que sustenta respostas honestas.
Como interpretar os resultados?
Cada item gera um percentual de respostas positivas. A média dos itens forma o resultado da dimensão, classificado assim:
Fortaleza: 75% ou mais de respostas positivas;
Intermediária: entre 50% e 74,9%;
Fragilidade: abaixo de 50%.
O manual orienta não analisar resultados com menos de 10 respostas e estender a coleta se a taxa de resposta ficar abaixo de 50%.
Um cuidado importante: dimensões intermediárias não são "zona confortável". Elas costumam esconder diferenças grandes entre setores. Sempre que possível, olhe os dados por unidade.
O que fazer depois da avaliação?
Aqui está o ponto em que muitas instituições param. A avaliação só gera valor quando vira ação:

Devolutiva às equipes. O NSP apresenta os resultados aos setores, de forma
transparente.
Priorização. Escolha de duas a três fragilidades para atacar primeiro. Tentar resolver tudo ao mesmo tempo dilui o esforço.
Plano de ação. Use ferramentas como 5W2H para definir o quê, quem, quando e como.
Acompanhamento. Vincule as ações a indicadores, como número de notificações e adesão a protocolos.
Reavaliação. O manual recomenda nova aplicação após 1 a 2 anos, sem intervalos menores que 6 meses.
Esse ciclo conversa com o que discutimos em segurança do paciente: quem é responsável. Cultura não se terceiriza para o NSP. Ela é construída por toda a organização.
Checklist da avaliação de cultura de segurança
Patrocínio da alta gestão confirmado
Versão do questionário definida (1.0 ou 2.0)
Público elegível listado e amostra calculada
Plano de comunicação pronto
Período de coleta agendado
Responsável pela devolutiva definido
Plano de ação com prazos e responsáveis
Dúvidas frequentes
A avaliação da cultura de segurança é obrigatória?
A RDC nº 36/2013 atribui ao serviço de saúde a promoção da cultura de segurança, e a avaliação é a forma mais objetiva de medi-la. A participação na avaliação nacional proposta pela Anvisa é um convite aos hospitais; recomenda-se confirmar a orientação vigente junto à Anvisa e à vigilância sanitária local.
Quem deve responder ao questionário?
Profissionais que conhecem as rotinas da instituição, interagem com outras equipes e atuam majoritariamente no hospital, incluindo áreas de apoio. Ex-funcionários e profissionais só ambulatoriais externos ficam de fora.
Qual é a diferença entre HSOPS 1.0 e 2.0?
A versão 1.0 tem 62 itens e 12 dimensões; a 2.0 tem 40 itens e 10 dimensões. A Anvisa recomenda a 2.0 para avaliações novas e a 1.0 quando o hospital quer comparar com aplicações anteriores na mesma versão.
De quanto em quanto tempo devo reavaliar?
O manual da Anvisa recomenda reaplicar o questionário após 1 a 2 anos, sem intervalos menores que 6 meses, para dar tempo de as ações do plano produzirem efeito.
Sobre o autor
Dennis Junior é sócio da Harbor Solutions e atua na frente de Consultoria em Gestão da Qualidade e Segurança do Paciente.
Precisa estruturar a avaliação de cultura de segurança ou transformar o resultado em plano de ação? Conheça a Consultoria em Gestão da Qualidade da Harbor e nossos treinamentos para equipes e NSP.
Fontes
Anvisa · Manual do Usuário do E-Questionário de Cultura de Segurança Hospitalar, 2ª edição · 04/08/2025 · gov.br/anvisa
Anvisa · Resolução RDC nº 36, de 25 de julho de 2013 · bvsms.saude.gov.br
Anvisa · Relatório da Avaliação Nacional da Cultura de Segurança do Paciente 2023 · gov.br/anvisa



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